• Sobre o Will

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  • Will Ferreira:


    De vez em quando a arte nos surpreende. A arte tem a capacidade de brotar onde menos esperamos... Como um organismo vivo, consciente, a arte as vezes escolhe para frutificar os lugares mais áridos, lá nos recantos onde nós, os “pretensiosos”, julgamos ser impossível que alguma manifestação legítima de arte possa prosperar.
    Will Ferreira é um artista contemporâneo, nasceu no interior paulista e hoje vive em Sorocaba, uma cidade de tradição operária; conhecida por seu parque industrial e não pela sua natureza, talvez essa cidade formasse mais um operário entre seus amontoados de máquinas, desgastadas pelo tempo, sujas de óleo e fumaça, talvez a visão se perdesse ente os clarões da solda e do infinito de linhas que compõe os tecidos das fiações, toneladas de aço e engrenagens, cabos, roldanas..., se falta a beleza dos campos, das arvores, das praias ensolaradas, a visão do artista então vai buscar outros recantos e torna a realidade improvável, a aridez da paisagem, a fonte de inspiração para uma nova arte, uma arte de reação. Nessa arte, os heróis de quadrinhos do garoto transformam-se em cavaleiros medievais, em armaduras que evoluem para seres de metal, num futuro caótico, a natureza, massacrada pelo progresso dá espaço a uma flora bizarra composta de cabos e eletrodos, talvez hibridações das antigas matas agora coberta pelos resíduos da passagem do homem , devastação. Se um dia houve humanos, hoje somente habitam “meio-humanos”, sem expressões, usam máscaras para esconder personalidades predatórias, famintas de dinheiro, poder, maldade.
    Há esperança, esta fica por conta do espectador dessas obras, quadros, esculturas, grafites que cobrem paredes, fachadas, se embrenham pelos cantos da cidade através da cor. Prendem a atenção de quem passa e questionam, pois a arte de rua é isto, antes de tudo, o questionamento. Quais caminhos estão seguindo? Qual será o resultado de nossos atos. Mais uma vez então, a arte faz refletir no externo o que no interno se faz real, dos seres nos prédios e nos galpões dos operários, os sentimentos se transformam em monstros, seres que refletem de forma atrevida, incômoda, o lado de nós que negamos; e, se conhecer a realidade traz contestação e mudança, ainda teremos esperança. E onde há esperança, há beleza.

    Will Ferreira toma como matéria prima para os seus trabalhos os mais variados materiais, articulando-se entre esculturas, grafites e pinturas de cavalete e porque não, pequenos projetos de animação, Faz suas criações através das tintas, das misturas, do papel das revistas, restos de tecido, sucata, tudo se transforma em possibilidades.
    Profissional da arte desenvolveu nas diversas oficinas a qual participou ou organizou uma visão da potencialidade de recursos, se são poucos, para criar é necessário o artifício, o improviso. Tudo é possível de transformação, sucata, paredes cinzentas, jovens. O mais importante é a idéia, a originalidade, validadas pela urgência em chamar a atenção da sociedade para temas como a realidade das periferias, o abandono dos grandes centros urbanos e da busca dos jovens de periferia em encontrar seu espaço, realidade que conhece bem.

    Ao lado do grafite, sua maior forma de expressão. Usa como tema o questionamento das relações humanas quanto ao progresso e o meio ambiente. Na maior parte, tem como suporte a tela e o acrílico, os pigmentos e o spray, incorporando muitas vezes retalhos, recortes de jornal e aplicações sobrepostas de stencil. Técnicas próprias da pintura em tela aparecem lado a lado com características típicas da arte de rua, o que lhe confere vitalidade e contemporaneidade.
    A grande formação do trabalho de Will Ferreira se deve a arte de rua, a apropriação dos espaços comuns e a necessidade da grande visibilidade criaram uma arte própria para grandes espaços, rápida, porém detalhada, agressiva mas capaz de conquistar sua permanência através do reconhecimento do popular, do transeunte, daquele que passa e para, admira. A arte de rua, para ser respeitada tem que ser forte, criar no espectador um retrato permanente em sua memória somente alcançada pela distinção, o reconhecimento imediato de um estilo.
    Os grafites de Will Ferreira são hoje regionalmente reconhecidos, em diversos trabalhos espalhados pelo interior, o estilo próprio, aos admiradores das artes de rua, basta uma descrição de sua temática para que logo se torne possível lembrar-se de uma imagem, de um local onde possa ser vista. A imagem hoje é sinônima do autor.
    Onde a tela emprestou das ruas, a rua se apossa das técnicas da tela, dos estudos, potencializando as possibilidades de se atingir o espectador, de buscar o máximo da expressão como objetivo técnico.

    Que seres seriam estes que não tentassem eclodir das telas para a realidade? Das concepções em duas dimensões em telas ou grafites, estes seres atravessam para a realidade onde todas as dimensões são exploradas. Tomando por base os objetos do dia-a-dia, das tintas e de polímeros industriais, os seres incorporam-se, tornam-se palpáveis projetando-se frente ao espectador.
    Das máscaras como base para estudo, as esculturas tomaram corpos, construíram moradias, formaram cidades. Tornam-se então objetos de outras formas de expressão com o Toy Arte e curta metragens.